A MORTE ENTERRA SÓ OS MORTOS pt 1

A morte sempre é um tema difícil.
De escrever, descrever, enfrentar.
A não ser para os escritores de terror que brincam com a morte, como se fosse uma coisa corriqueira.
Ir para um acampamento e das profundezas de um lago surgir um psicopata que sai matando todo mundo…
Ainda mais nos dias de hoje, que em qualquer esquina podemos encontrar um louco assim.
Sem precisar usar máscara de hóquei ou coisa parecida.
Cada pessoa reage de forma diferente ao evento.
Os cemitérios novos possuem um aspecto mais calma e verdejante, como um paraíso, diferente dos antigos, com aquela atmosfera sombria.
Se você não estava desesperado com a morte de alguém, ao entrar no cemitério, o clima desaba sobre sua cabeça.
Não gosto de ir a cemitérios.
Até meu pai morrer, lembro que conhecia cemitérios mais através das capas dos discos do Black Sabbath ou de outras bandas de heavy metal.
Quando tinha uns 2 anos, lembro que meus pais foram ao enterro de alguém. E fiquei no carro com uma tia. Recordo que caí numa espécie de riachinho que tinha no estacionamento. Minha mãe sempre se espantou de eu ter isto na cabeça, sendo tão pequeno.
Depois, acho que fui no enterro das minhas avós. E muitos anos ou décadas, o enterro dos meus pais.
Meu pai morreu em novembro de 96.
Ele tinha um aneurisma na aorta. Eu e minha mãe sabíamos, mas combinamos de não contar para ele, pois o médico recomendou que quanto menos ele se preocupasse, melhor para o coração.
Uns meses antes, minha mãe sofreu um AVC, que a levou ao coma, convulsões, perda dos movimentos e de grande parte da memória.
Nesta época, já estávamos pensando em comprar uma casa maior para todos morarem juntos, para facilitar cuidado e atenção que os dois precisavam. Mas com o AVC, muita coisa mudou.
Minha mãe, a vida toda dela, sempre esteve ao lado de irmãs, primas, sobrinhas quando elas precisaram.
Nesta hora, no reverso da moeda a gente conhece como as pessoas realmente são.
Não vou gastar detalhes dos fatos, até porque gastar linha com quem não merece, não presta e nunca me acrescentou nada vai ser enfadonho e apenas realçar a podre natureza humana.
Por causa de interesses financeiros de uma irmã doente e depressiva, ela conseguiu disseminar calúnias e outras benesses entre parentes que a apoiaram.
Ela contava com a ajuda mentirosa de uma mulher que ia para casa dela e dizia que eu espancava meu pai, chutava minha mulher e batia nas crianças como se fosse um endemoniado ou um bêbado.
Com o stress causado pela doença da minha mãe e mentiras, meu pai acabou indo parar num açougue particular, indicado por esta irmã da minha mãe. Que o largou lá, para que Deus cumprisse seus desígnios.
Ele foi internado numa quinta ou sexta, foram me avisar na segunda-feira da semana seguinte. Uma tia (irmã dele) que foi chamada por ele e ouviu sua reclamação que tinha sido abandonado no hospital para morrer.
Fui na mesma segunda vê-lo. Lá ele descobriu que tinha o aneurisma e que era gravíssimo.
Na quarta, tentaram removê-lo para fazer alguns exames que não tinham no hospital.
Ele sangrou até morrer.
Não tinham como parar a hemorragia no coração.
Na quinta, umas seis horas da manhã, ligaram lá para casa.
Minha mulher atendeu.
Insistiam em falar comigo.
O hospital estava ligando para avisar que ele tinha morrido e que precisava que se providenciasse a remoção do corpo.
Esta tia, irmã da minha mãe, a mesma que já falei dela em AS PALAVRAS E O GLOBO, não teve nem o mínimo de caráter, hombridade e coragem para me ligar e dar a notícia.
O filho dela, considerado pela minha mãe como filho e até aquela hora, como irmão, também seguiu o mesmo caminho da mãe.
Omissão completa.
As chaves da casa dos meus pais estavam com esta tia, que se recusava a me dar, dizendo que tinha deixado uma roupa lá no hospital para ele ser enterrado e que não precisava de nada.
A roupa que tinha lá, era a que ele tinha dado entrado no hospital. Uma bermuda, blusa e uma sandália.
Depois de alguns telefonemas e alguns berros raivosos ela entregou a chave.
Não tive coragem de chegar perto do corpo.
Estava numa espécie de garagem do hospital, numa maca.
Minha ex-mulher e o pastor da minha igreja na época foram lá vesti-lo.
Esta tia, não apareceu o enterro.
Seu filho chegou no cemitério, me chamou para fora da capela.
Pensei que vinha trazer conforto, um abraço.
Veio trazer conforto para sua alma pesarosa, sua consciência pesada que reclamava e uivava dentro dele.
Entregou-me um envelope, com alguns documentos, talão de cheques do meu pai e algumas dividas que a mãe dele deixara para eu pagar.
Ele veio prestar contas.
A morte traz à tona muitas vezes o que ficou escondido durante anos.
Eu não conhecia esta podre natureza humana, corrupta e corrompida da família.
No envelope, tinha um cheque de 2.500 reais para ser descontado, o talão de cheques assinado pelo meu pai e em branco, extrato da conta demonstrando quanto ele tinha na conta dele.
As chaves que ela não queria me dar, já faziam parte de uma bem articulada trama que já tinha até advogado envolvido.
Não uso o sobrenome da família da minha mãe por motivos óbvios.
Não que não tenham nela pessoas cristãs e honestas.
Mas toda vez que vejo o nome, me lembro destas coisas.
Não tem amor ao próximo, perdão que até tenha tirado isto de dentro de mim.
Acho que o problema nem seja eu perdoar. Mas sim lembrar o mal que propositalmente por ganância e segundas intenções expeliram.
Mas a morte não encerrou os meus problemas.

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