A IMPUNIDADE DA TORTURA pt 2

Há uns anos atrás, um amigo que conhecia fazia tatuagens em casa.
Ele morava na mesma rua que a minha. Casa grande, família grande. Ele tem 4 irmãs e um irmão. Mas acho que neste ponto começou a confusão. Aliás, já tinha começado. Vou chamá-lo de Juan.
A mãe é casada com um cara há uns 12 anos. Mas cada filho tem um pai diferente.
O marido atual tem emprego (acho que ainda trabalha) de funcionário público federal.
Já tinha se tratado anteriormente por causa de drogas e álcool.
Ele teve uma recaída.
Começou toda a desgraça.
Gastava todo o dinheiro em drogas e bebidas. Primeiro usava maconha no cigarro. Depois loló. Aí passou para a cocaína. E finalmente, começou a usar crack que terminou com seus últimos neurônios e enterrou qualquer momento de razão que ele ainda pudesse ter.
Juan como fazia tatuagens tinha seu próprio dinheiro.
Mas com a falta de dinheiro em casa provocada pelo vício do padrasto, e idade e condiçoes para procurar seu próprio caminho, resolveu sair de casa.
Ele me pediu para usar os fundos lá de casa para fazer tatuagens, pois muitos de seus clientes não subiriam o morro. Como tinha espaço ocioso em casa deixei. Ele varria o quintal e trouxe com ele a pitbull que ele tinha e que estava na casa de um conhecido.
Mas o mal fala mais alto dentro dele. Apesar de ganhar dinheiro fazendo as tatuagens, a vida do crime falou mais alto. O falso dinheiro fácil, através de roubos, assaltos e tráfico lampejou por dentro e ele começou a caminhar pela vida do crime.
Apesar de todos falarem, tentarem ajudar, não teve jeito.
A mãe dele não bateu nele, não torturou com alicate e fios de cobre, não queimou as mãos com colher quente e nem tentou jogar ele pela janela.
Mas torturou da pior maneira possível: falta de amor.
Num dos momentos de crise de Juan, fui falar com ele, e desabafou para mim: minha mãe nunca me deu nada. Achar que dar roupa, tênis é alguma coisa, não é nada.
Falei com a mãe dele na mesma hora para ver se ela ia até ele e no mínimo um abraço, um beijo, um momento de conforto. Nada.
Alguns meses depois ele matou um cara. Deu um tiro no coração. O tio dele, que estava do lado, disse: começou, agora termina, descarrega. Foram mais uns 10 tiros na cara do sujeito.
O poder paralelo tem suas próprias leis e regras.
Foram atrás dele para fazer justiça.
Nesta época eu estava com 4 pitbulls em casa. Todos eles adultos.
O poder paralelo tentou entrar lá em casa, mas não conseguiram por causa dos pitbulls.
E eu nem sabia o que estava acontecendo. Só fui descobrir 4 dias depois, quando Juan já estava foragido.
Meses depois fui encontrá-lo longe de onde morava, pois não podia mais transitar na área da facção que ele pertencia.
Tinha recebido a sentença de morte.
Perguntei como ele se sentia. Com certeza no momento que matou o cara devia estar drogado ou possuído. Ele já tinha conversado comigo que ouvia vozes, via vultos. A família tinha envolvimento com a macumbaria e que ele tinha sido oferecido num centro.
Disse para mim que foi uma coisa normal o que fez, pois se não tivesse feito ele que estaria morto.
Mas ele não sabia que realmente já estava morto.
E a mãe continua sua vidinha, impunemente.

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