MINHAS ÚLTIMAS PALAVRAS (mas não as derradeiras, ainda!)

Ontem numa conversa surgiu o assunto dos suicidas em potencial, e fiquei lembrando minha adolescência. Eu acho que eu era um suicida em potencial. E não foi por causa das muzks do Ozzy Osbourne ou do ACDC que eu pensei nisso.
Eu nunca fui uma pessoa muito social, falante, sempre fui muito caseiro, ou melhor trancafiado no meu quarto escutando muzk. Nunca fui namorador, pegador ou coisa assim naquela época.
Todo perfil para um suicida em potencial. Ou um serial killer. Ou um destes loucos que vão para uma escola e matam uns 15 estudantes, ferem uns 70 e depois se matam. Mas não moro nos EUA.
Nesta época, com uns 9 anos, não lembro bem se foi com esta idade, lembro que sentei no parapeito da janela do meu quarto, morava no oitavo andar e fiquei olhando a paisagem. Balançava as pernas, e ficava olhando para baixo.
O chão é muito atraente.
Quando meus pais chegaram em casa, parece que uma vizinha me viu fazendo isso, mas não gritou, não fez alarde para eu não me assustar e cair, ela falou com eles.
Eles vieram falar comigo, não me lembro se gritaram ou não, e para mim, nada anormal tinha acontecido.
Eles colocaram uma corrente na janela do meu quarto.
E ficou assim durante uns anos.
Um dia tiraram a corrente da janela, julgaram que eu não faria mais isso. E não fiz mesmo. Mas atração pelo chão sempre foi forte. Estranho. Nunca entendi bem o que se passava na minha cabeça.
Eu passava horas e horas desenhando e escutando muzk.
Uns desenhos bem doidos. Abismos, chãos quadriculados, animais bizarros, céus azuis com nuvens, dragões.
Meu pai tinha umas folhas de 1m x 0,70m, e os desenhos todos eram deste tamanho XXG.
Levava em média uma semana para cada desenho. Estas horas todas, sozinho, desenhando, pensando, acho que me levaram a ser muito crítico em relação a mim e a tudo.
Por não falar muito (acho que quando falo) tenho que falar o que penso, o que sinto. Para algumas pessoas falar o que se pensa é um absurdo. Escrever pior ainda. Mas a terapia ocupacional ajuda a eliminar algumas coisas que guardava antes.
Por isso fiz o meu blog, exteriorizei uq pensava e uq sinto.
Eu até estou aprendendo a lidar com o inevitável.
Naquela época eu desenhava, e não falava.
Um dia, o chão estava atraente demais. Pensei na sujeira que ia causar, e que podia não ter sucesso. Ou fracasso.
Os desenhos naquela época estavam mais bizarros. Crânios, corpos dilacerados.
Acho que o extremo foi um desenho da Faculdade, que tinha uma pantera com um antebraço na mandíbula. Me cortei fazendo a ponta do lápis com um estilete (até hoje ainda me corto) e pingou sangue no trabalho. Resolvi usar o sangue como sangue do antebraço dilacerado. Foi o último desenho.

Parei de desenhar. O derradeiro desenho foi 1990. Depois de muito custo, pois tinha uns 6 anos que não desenhava. Foi para colocar na casa nova.
Ano retrasado vi o filme que retratava a vida de Jackson Pollock, um dos icones da pintura moderna, e fiz 2 quadros para botar no meu quarto, usando a técnica dele.

Há pessoas que nos falam e nem sempre escutamos, há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam.
Mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre.

Cecília Meirelles

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Publicado em: EU

Um comentário sobre “MINHAS ÚLTIMAS PALAVRAS (mas não as derradeiras, ainda!)

  1. Diogo de Jesus Pereira disse:

    Creio que não serão suas últimas palavras. Como está escrito na frase de Cecília Meireles, “há pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre.” Enquanto você tiver amigos (verdadeiros amigos), você não terá motivo para se calar. Caso você venha a se calar, me dê esse seu quadro de 1990, que é muito legal! Conte comigo.Diogo

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